Até o Fim


 

Até o fim - com esta garganta rouca, esgarçada por silêncios que se acumulam como cinzas. Estes olhos líquidos, encharcados por noites inteiras de espera, ainda buscam um horizonte que nunca se formou.

São olhos que viram promessas desmoronarem como castelos de areia, que assistiram ao lento apagar das luzes que um dia guiaram seus passos.

Até o fim - com estas mãos trêmulas, que já não conseguem segurar as frágeis promessas do passado, mas ainda tateiam memórias com a delicadeza de quem acaricia um pássaro ferido.

Mãos que um dia ergueram sonhos, que teceram planos com fios de esperança, agora carregam apenas o peso das coisas que não foram.

Até o fim - com estes pés exaustos, feridos de tanto caminhar em círculos, pisando sobre os mesmos erros, as mesmas pedras, os mesmos desertos. Pés que já cruzaram campos de batalha invisíveis, onde cada passo era um ato de resistência contra a desistência.

E com estes lábios, costurados ao pé da noite, que guardam palavras como quem esconde segredos de dor. Palavras que nunca foram ditas, presas em um grito mudo, sufocadas pelo medo de romperem o frágil equilíbrio da alma.

Até o fim - sem dizer nada. Porque há dores que não cabem na voz, lamentos que o mundo se recusa a ouvir, verdades que só o silêncio sustenta. São dores que nasceram nas noites em que o vazio se fez companhia, nas madrugadas em que o eco de risos antigos se misturava ao som de lágrimas que ninguém viu cair.

Até o fim - com estes canais premindo o sangue, está circulação obstinada que insiste em me manter vivo, mesmo quando tudo em mim implora pelo descanso.

É um coração que pulsa contra a vontade, que bombeia vida por teimosia, desafiando as ruínas que se acumulam em seu entorno. Um coração que já foi traído por promessas, abandonado por aqueles que juraram ficar, e ainda assim se recusa a apagar.

Até o fim - com o obrigatório oxigênio de cada suspiro, está sobrevivência árida no abstrato, neste ar pesado que me cerca de ausências. Ausências de rostos que se foram, de vozes que se calaram, de futuros que nunca chegaram.

Cada inspiração é um ato de coragem, cada expiração, um lamento pelo que foi perdido.

Até o fim - com a tinta indelével do amor na alma, essa marca que não se apaga, mesmo quando tudo em volta apodrece. Um amor que sobrevive às tempestades, que resiste às erosões do tempo, que brilha mesmo sob as camadas de cinza deixadas pelas desilusões. É o amor que me mantém de pé, ainda que cambaleante, ainda que ferido.

Até o fim - até que se quebrem as frágeis epidermes desta mentira, até que o falso se rasgue como um véu ao vento, e a nudez da verdade se imponha, crua, dolorosa, inevitável.

Que o fim chegue sem atalhos, sem disfarces, sem perdões que maquiam covardias, sem esperanças falsas que adormecem o espírito. Que venha com a força de um trovão, arrancando as máscaras, expondo as cicatrizes, revelando o que sempre esteve escondido sob a superfície.

Até o fim - com os olhos firmes no abismo, encarando o vazio sem desviar o olhar. Com o coração, ainda que em cacos, erguido como um estandarte contra o esquecimento.

Um coração que carrega as marcas de batalhas perdidas, mas que se recusa a ser apagado. Que o fim, quando vier, me encontre de pé, com a alma nua, mas inteira.

Que me encontre ainda lutando, ainda amando, ainda acreditando, mesmo que apenas no milagre de existir.

Até o fim - porque, mesmo na escuridão, há uma centelha que insiste em brilhar. E é por ela que sigo, até o fim.

Francisco Silva Sousa

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A Primeira Namorada

O Olhar

Pensamentos