Como um pássaro...


 

Como um pássaro que, através das grades, contempla o sol sem tocá-lo, admira as árvores sem pousar nelas, e sonha com ninhos que talvez jamais construa - assim é o meu amor por você: aprisionado, inquieto, faminto de liberdade.

Meu coração, enjaulado por lembranças, bate com força contra as grades invisíveis do destino, enquanto minha alma se lança em voos que só a imaginação permite.

Imagino seu rosto nas manhãs cinzentas, seu perfume pairando no ar parado do meu quarto, sua voz ecoando entre as paredes vazias da casa e do peito.

Sua ausência é uma presença feroz. Habita meus pensamentos como um fantasma que não se despede. Persegue-me nas madrugadas em claro, nas promessas não cumpridas, nos beijos sonhados e nas palavras que nunca chegaram a ser ditas.

Eu te amo - e sei, no fundo, que me amas também. Mas há esse abismo intransponível, essa cerca invisível que o tempo, ou o destino irônico, ergueu entre nós. Nada é palpável, exceto a dor. Nada é real, exceto a falta.

Quero não pensar, preciso não sentir. Tento me convencer de que é possível conviver com esse vazio, como quem aprende a respirar debaixo d’água. Mas como calar um coração que insiste em gritar seu nome? Como ensinar ao corpo que seus abraços agora só existem na memória?

Preciso me acostumar a tê-la assim: cravada em mim, como uma rosa com espinhos, enraizada no peito, mas distante das mãos. Uma lembrança viva que me consola e me tortura.

Onde você está?

Em que lugar repousam seus pensamentos? Será que, às vezes, você também sente essa dor? Será que, mesmo longe, ouve o chamado do meu amor?

Se ao menos as grades fossem só de ferro…, mas são feitas de tempo, de escolhas, de caminhos que se desencontraram.

Ainda assim, continuo aqui, sonhando com o dia em que, como um pássaro enfim livre, eu possa voar ao encontro do seu coração.

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