Hematomas na Alma
Forte por fora, mas carregando o peso de hematomas
invisíveis por dentro - assim tem sido a minha jornada. Caminho com passos
firmes, mas por dentro, carrego cicatrizes profundas, silêncios pesados e dores
que ninguém vê. São feridas que o tempo não curou, apenas cobriu com a poeira
dos dias.
A cada amanhecer, carrego o fardo de angústias
acumuladas, como pedras espalhadas por um caminho que nunca se endireita. A
sorte - essa entidade tão desejada e quase mística - jamais caminhou ao meu
lado. Por inúmeras vezes, estendi minha mão ao acaso, implorando por um sopro
de alívio, mas ela sempre se esquivou, como sombra que desaparece ao menor
sinal de luz.
Houve noites em que o silêncio gritava dentro de mim,
e a dor era tão densa que respirar parecia um castigo. Em alguns momentos,
desejei não estar mais aqui - não por fraqueza, mas por exaustão. A morte,
naquele instante, parecia uma promessa de descanso mais gentil do que o peso de
seguir adiante.
Lutei contra a solidão que me envolvia como um manto
nos dias mais escuros. Lutei contra as portas que se fechavam sem explicação,
contra as promessas feitas com ternura e esquecidas com frieza.
Vi amizades esmorecerem sem motivo, amores evaporarem
diante da primeira dificuldade, e sonhos virarem pó nas mãos do tempo.
Perdi pessoas que amava profundamente, algumas
arrancadas pela distância, outras pela morte, outras ainda pela frieza das
escolhas. Fui traída por quem jurei confiança, ferida por palavras ditas com
descuido, marcada por silêncios que diziam mais que mil gritos. E a cada queda,
parecia que o mundo sussurrava: "Você não vai aguentar."
Mas... eu aguentei.
Mesmo quando tudo parecia irremediavelmente perdido,
algo dentro de mim, uma centelha quase apagada, se recusava a se render. Talvez
seja teimosia, talvez esperança - ou talvez seja apenas o instinto de
continuar, mesmo sem entender o porquê.
Encontrei forças onde jamais imaginei: no silêncio de
uma madrugada sem estrelas, na lembrança de um abraço antigo, no som abafado da
minha própria respiração dizendo “mais um dia”. Houve beleza nos gestos mais
simples: no raio de sol tímido que atravessa a fresta da janela, na palavra
gentil de um estranho, na música que toca de surpresa e resgata memórias boas.
A vida, com toda a sua crueldade, também me ensinou a
ser delicadamente resiliente. Não venci grandes batalhas, não subi montanhas épicas
- mas segui em frente. E isso, por si só, já é uma vitória silenciosa. Minha
história não está escrita em letras douradas, mas em cicatrizes que contam que
eu sobrevivi a mim mesma, aos outros, ao mundo.
Não sei se a sorte algum dia baterá à minha porta. Mas
aprendi que, enquanto ela não vem, posso construir meu próprio caminho - mesmo
que torto, mesmo que hesitante. Posso inventar minha rota com pedaços de
esperança, com migalhas de coragem, com fé miúda, mas persistente.
E, quem sabe, um dia, eu olhe para trás - com os olhos
já cansados, mas o coração em paz - e perceba que, apesar dos hematomas na
alma, valeu a pena continuar. Porque, no fim das contas, há uma beleza inegável
em simplesmente não ter desistido.
Francisco Silva Sousa

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