Imperfeições


Tive amores que não pude viver, sonhos de afeto que o tempo ou o destino roubaram de mim, deixando apenas o eco de um vazio que ainda sussurra no peito.

E vivi outros que não deveria, entregando-me a paixões frágeis, que se desfizeram como castelos de areia sob as ondas da verdade. Cada amor não vivido é uma ferida que carrego; cada amor mal escolhido, uma lição que me molda.

Enfrentei disputas que deveria ter evitado, guerras internas travadas por orgulho ou medo, onde o silêncio teria sido mais sábio que o grito. Mas também lutei batalhas inevitáveis, aquelas que a alma não permite fugir, onde o coração, mesmo sangrando, exige ser ouvido.

Em cada confronto, aprendi que a paz é mais preciosa que a vitória, mas mais difícil de conquistar. Pronunciei palavras que deveria ter calado, frases que escaparam como flechas, ferindo onde só o amor poderia curar.

E guardei silêncios que deveriam ter sido voz, verdades presas na garganta, que, se libertadas, poderiam ter mudado destinos - o meu, o de outros, ou o do mundo que habitamos juntos.

Cada palavra dita ou omitida é um fio na tapeçaria da minha existência, ora desajeitado, ora delicado. Gastei com o supérfluo, seduzido pelo brilho efêmero do que não sustenta a alma, e economizei no essencial, negando a mim mesmo o que dá sentido à vida: tempo, afeto, presença.

Acreditei em sonhos que erguiam asas, voando alto em céus de esperança, mas também fechei os olhos para a realidade, temendo o peso de verdades que exigiam coragem.

Já me deixei enganar por mentiras, abraçando-as como refúgio, e desdenhei verdades que, embora cortantes, eram o mapa para encontrar-me. Vivi instantes que pareciam eternos, quando a alegria me fez esquecer que tudo é passageiro.

E atravessei noites que engoliram a luz, onde o desespero sussurrava que o amanhecer nunca viria. Perdi-me em labirintos que eu mesmo criei, mas também encontrei saídas em momentos de clareza, quando a vida, em sua generosidade cruel, me ofereceu um vislumbre de sentido.

Por que sou assim, tão imperfeito, tão contraditório? Por que carrego o peso de escolhas que machucam e a leveza de outras que salvam? Eu, humano, sou um mosaico de erros e anseios, de quedas e redenções.

Cada amor não vivido, cada palavra mal dita, cada sonho abandonado é um traço do que sou. E é na fragilidade dessas imperfeições que encontro o mistério da existência: viver não é acertar, mas buscar; não é compreender, mas sentir.

E assim sigo, com o coração aberto e machucado, tateando no escuro em busca de luz. Talvez o sentido da vida esteja justamente nesse caminhar - não na chegada, mas na coragem de continuar, humano, imperfeito, inteiro.

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