Tempestade de Amor
Meu coração não aprendeu a
amar em pílulas de afeto nem a se satisfazer com sussurros frouxos. Ou me
entrego inteiro, com a alma em chamas, ou recolho o fogo para sonhos que
realmente mereçam arder.
Não sei sentir em pequenas
gotas, como quem toca a superfície da água e recua antes de se molhar. Quero a
tempestade - o dilúvio que invade cada fresta, ainda que seja só uma miragem
dançando por uma noite antes de se dissipar na claridade pálida da manhã.
Se não for assim, que não
seja. Prefiro a solidão ao amor que não inflama. Não me atraem romances
frágeis, paixões escondidas atrás de silêncios ou corações que se saciam com
migalhas.
Não sei ser morno, muito
menos brincar de afetos que não aceleram o pulso. Quero um amor que transborde,
que chegue feito vendaval, me roube o fôlego e devolva a vida quando encontro,
nos olhos da outra pessoa, o reflexo de quem não tem medo.
Quero alguém que diga “eu
te amo” com a firmeza de quem encara o abismo, que revele desejos na febre do
instante e na ternura do depois, ou invente histórias tão belas que desafiem o
fim - mesmo que a vida nos negue o “felizes para sempre”.
Essa fome nasceu nas
madrugadas em que esperei palavras que nunca chegaram, nos olhares que
prometiam mundos e entregaram silêncios, nas vezes em que o coração se
estilhaçou e, teimoso, resolveu sonhar de novo.
Lembro da noite em que a
chuva tamborilou no telhado enquanto o telefone permanecia mudo. Cada gota
parecia contar as horas do meu desencanto, marcando o compasso de uma espera
que se alongava além do razoável.
Foi ali que aprendi: o amor
verdadeiro não é tímido, não é morno, não é covarde. Alguns dias depois, eu, ainda ensopado de saudade, vaguei pelas ruas de uma
cidade que já não reconhecia. Nos letreiros luminosos, via promessas de
recomeço; nos desconhecidos apressados, ouvia ecos do que poderíamos ter sido.
Cada passo me ensinou que
cicatrizes não servem só para lembrar a dor, mas para lembrar a coragem de
reabrir o peito.
Quero, pois, um amor que se
faça poesia viva - que pinte a existência com cores inéditas, que me faça
sentir o universo num toque, num beijo, num instante roubado entre risos.
Quero alguém que não tema
se perder ao meu lado, que dance descalço na rua ainda molhada, que ria alto
até doer o ventre, que chore sem pudor quando o mundo pesar demais. Porque, no
fim, é esse amor - intenso, imperfeito, avassalador - que faz o coração bater
mais forte e dá à alma o gosto exato de chegar em casa.
E se um dia o vendaval
cessar e restar apenas o silêncio, que sobre também a certeza de termos vivido
tudo em chamas.
Que as cinzas sejam testemunha de um amor sem meias-verdades, sem reservas, sem rédeas. Pois é melhor arder até o fim do que passar pela vida com o coração em morna penumbra.
Francisco Silva Sousa

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