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Até o Fim

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  Até o fim - com esta garganta rouca, esgarçada por silêncios que se acumulam como cinzas. Estes olhos líquidos, encharcados por noites inteiras de espera, ainda buscam um horizonte que nunca se formou. São olhos que viram promessas desmoronarem como castelos de areia, que assistiram ao lento apagar das luzes que um dia guiaram seus passos. Até o fim - com estas mãos trêmulas, que já não conseguem segurar as frágeis promessas do passado, mas ainda tateiam memórias com a delicadeza de quem acaricia um pássaro ferido. Mãos que um dia ergueram sonhos, que teceram planos com fios de esperança, agora carregam apenas o peso das coisas que não foram. Até o fim - com estes pés exaustos, feridos de tanto caminhar em círculos, pisando sobre os mesmos erros, as mesmas pedras, os mesmos desertos. Pés que já cruzaram campos de batalha invisíveis, onde cada passo era um ato de resistência contra a desistência. E com estes lábios, costurados ao pé da noite, que guardam palavras como qu...

Desabafo

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  Você me deixou com perguntas que envelhecem comigo. Mas, mesmo sem respostas, ainda falo com você. Há dias em que o silêncio pesa menos quando finjo que você me escuta. Outras vezes, tudo o que consigo dizer é o que nunca tive coragem de falar quando você ainda estava aqui. Às vezes, sinto que só existo porque continuo te esperando. Se um dia quiser sair do seu mundo e vir conhecer o meu, minha casa estará de portas abertas. Não à casa de tijolos e janelas, mas a que construí dentro de mim, com cicatrizes e esperanças novas. Sinto falta das nossas conversas, dos silêncios que não incomodavam, dos sorrisos que sabiam onde pousar. Talvez uma mudança de ares te faça bem. Talvez você também precise de um lugar onde possa reaprender a respirar. Se for para recomeçar, que seja daqui. Que o mar leve tudo o que ainda me prende: os medos herdados, os fantasmas do passado, as lembranças que me impedem de caminhar com leveza. Porque aprendi que recomeçar não é esquecer, é acolher ...

A Espera

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  Talvez eu tenha nascido para esperar. Esperar por um amor que se perdeu em algum canto do tempo, que prometeu voltar, mas nunca o fez. Esperar por um sentido que se esconde nas entrelinhas de dias vazios, que parece sempre estar a um passo de ser revelado, mas nunca se deixa alcançar. Esperar que algo, qualquer coisa, rompa o silêncio que se instalou em mim como um hóspede indesejado. Estou me tornando uma ruína, não de pedra, mas de memórias que insistem em pulsar, habitando os escombros do que fui um dia. Você me deixou com perguntas que envelhecem comigo, perguntas que carrego como cicatrizes que ninguém vê. Elas pesam, enrugam o tempo, mas não desbotam. Ainda falo com você, mesmo sabendo que não há resposta do outro lado. É um monólogo que sustenta minha existência, como se, ao te chamar, eu pudesse enganar o vazio. Às vezes, sinto que só existo porque continuo te esperando, como se a espera fosse o último fio que me prende a algo que já não sei nomear. Houve um tempo...

O Amor!

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  O amor, somente o amor, possui a potência única de nos fazer apreender o outro na mais íntima e intransferível originalidade de seu ser. Ninguém alcança a plena consciência do cerne de outra pessoa sem que a ame. Pois amar é mais que perceber o que é manifesto: é penetrar o véu da aparência e vislumbrar a essência, onde repousam as verdades ocultas e as possibilidades latentes do ser amado. No amor, tornamo-nos aptos não apenas a discernir os contornos visíveis, as descrições típicas, mas também a captar os aspectos profundos, quase inefáveis, que compõem o tecido único da pessoa amada. E mais: é através do amor que se nos revela a potência ainda adormecida, tudo aquilo que não está, mas que pode vir a ser. Amar é, pois, tornar-se cúmplice e testemunha da metamorfose do outro. É oferecer-lhe o espelho onde ele possa enxergar não apenas o que é, mas também o que ainda lhe é possível ser. Quem verdadeiramente ama se converte em coautor do vir-a-ser do outro, sem jamais impo...

Como um pássaro...

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  Como um pássaro que, através das grades, contempla o sol sem tocá-lo, admira as árvores sem pousar nelas, e sonha com ninhos que talvez jamais construa - assim é o meu amor por você: aprisionado, inquieto, faminto de liberdade. Meu coração, enjaulado por lembranças, bate com força contra as grades invisíveis do destino, enquanto minha alma se lança em voos que só a imaginação permite. Imagino seu rosto nas manhãs cinzentas, seu perfume pairando no ar parado do meu quarto, sua voz ecoando entre as paredes vazias da casa e do peito. Sua ausência é uma presença feroz. Habita meus pensamentos como um fantasma que não se despede. Persegue-me nas madrugadas em claro, nas promessas não cumpridas, nos beijos sonhados e nas palavras que nunca chegaram a ser ditas. Eu te amo - e sei, no fundo, que me amas também. Mas há esse abismo intransponível, essa cerca invisível que o tempo, ou o destino irônico, ergueu entre nós. Nada é palpável, exceto a dor. Nada é real, exceto a falta. ...

O que é o destino... A garota da maçã

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  Agosto de 1942, Piotrków, Polônia. O céu estava cinzento, carregado de nuvens pesadas, como se pressentisse a tragédia que se desdobrava abaixo. Naquela manhã, a tensão pairava no ar do gueto judeu de Piotrków. Homens, mulheres e crianças, exaustos e famintos, foram arrancados de suas casas e conduzidos a uma praça central, onde o destino de cada um seria selado. Rumores aterrorizantes corriam entre a multidão: estávamos sendo deportados. Para onde, ninguém sabia ao certo, mas o medo de campos de concentração e da separação das famílias era uma sombra constante. Meu pai havia morrido semanas antes, vítima do tifo que se espalhava como praga pelo gueto superlotado. Minha mãe, meus três irmãos e eu lutávamos para manter a esperança, mas ela se esvaía a cada dia. Meu maior temor era que nossa família fosse despedaçada. Isidore, meu irmão mais velho, um rapaz de olhos firmes e coração resiliente, puxou-me para o lado e sussurrou com urgência: - Não importa o que aconteça,...

Tempestade de Amor

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  Meu coração não aprendeu a amar em pílulas de afeto nem a se satisfazer com sussurros frouxos. Ou me entrego inteiro, com a alma em chamas, ou recolho o fogo para sonhos que realmente mereçam arder. Não sei sentir em pequenas gotas, como quem toca a superfície da água e recua antes de se molhar. Quero a tempestade - o dilúvio que invade cada fresta, ainda que seja só uma miragem dançando por uma noite antes de se dissipar na claridade pálida da manhã. Se não for assim, que não seja. Prefiro a solidão ao amor que não inflama. Não me atraem romances frágeis, paixões escondidas atrás de silêncios ou corações que se saciam com migalhas. Não sei ser morno, muito menos brincar de afetos que não aceleram o pulso. Quero um amor que transborde, que chegue feito vendaval, me roube o fôlego e devolva a vida quando encontro, nos olhos da outra pessoa, o reflexo de quem não tem medo. Quero alguém que diga “eu te amo” com a firmeza de quem encara o abismo, que revele desejos na febre d...

Pensamentos

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  A casa da alma Quando a tristeza me aperta o peito ou a inquietude sussurra em meus ouvidos, retorno à minha casa interior. Caminho pelos quartos dos meus pensamentos, abro as janelas das minhas liberdades, releio-me nos salões amplos das minhas emoções e aqueço a cálida cozinha da minha alma, onde o aroma de memórias antigas ainda paira. Gosto desta casa, de como ela se ergue, simples, mas verdadeira. Não é perfeita, mas é acolhedora, moldada pelas mãos do tempo e pelos alicerces da minha essência. Com a caixa de ferramentas da consciência, tento reparar seus defeitos: uma rachadura de dúvida aqui, uma porta que range com o peso da culpa ali. Nem sempre consigo, mas o esforço de cuidar dela me ensina a acolher meus sentimentos, mesmo os mais desajeitados. Às vezes, encontro a casa em desordem - gavetas de mágoas entreabertas, poeira de arrependimentos acumulada nos cantos. Mas, com paciência e amor, arrumo cada canto. Não permito que os rancores se escondam sob as ca...